Referência internacional nos estudos sobre o uso de rochas na agricultura, o professor Peter van Straaten é um dos principais responsáveis por criar e difundir, mundialmente, o conceito de utilização dos agrominerais como insumos capazes de contribuir para a fertilidade dos solos e a sustentabilidade da produção agrícola. Autor da obra clássica Rocks for Crops (Rochas para plantas), ele ajudou a consolidar as bases científicas da agrogeologia, área que integra conhecimentos da geologia, da ciência do solo e da agronomia.
As pesquisas do professor van Straaten no Brasil iniciaram em 2003, quando veio pela primeira vez ao Brasil. Nesta ocasião, ele e o professor Othon Leonardos traçaram estratégias para fortalecer o uso dos agrominerais no Brasil. No ano seguinte, juntamente com a professora Suzi Theodoro, organizaram a 1.ª Conferência Rocks for Crops, no Brasil. Nesta ocasião estiveram presentes pesquisadores de 12 países, representando os cinco continentes (Ásia, Oceania, África, Europa e Américas do Sul e do Norte). Nesta conferência, esteve presente o mestre de todos os mestres da Rochagem, professor Willian Fyfe, da Universidade de Guelph – Canadá. Ao final do evento, foi elaborada a carta de Patos de Minas (região onde foi realizada uma viagem de campo, que reuniu geólogos, agrônomos e técnicos extensionistas do governo brasileiro). Esse histórico encontro selou as bases das políticas públicas relacionadas aos Remineralizadores.
Nesta entrevista exclusiva para a revista Novo Solo, o professor compartilha algumas reflexões sobre sua trajetória, a evolução das pesquisas com agrominerais, categoria onde se inserem os Remineralizadores de Solo (REM) no Brasil e no mundo. Ele aborda os desafios para ampliar o uso dos REM e o papel estratégico das rochas silicáticas na agricultura e na mitigação das mudanças climáticas.

O senhor é uma referência e inspiração global no campo do uso de rochas para plantas. Poderia descrever o início de seu envolvimento com a agrogeologia, a partir de sua experiência enquanto viveu na África, e compartilhar um breve panorama de sua trajetória profissional?
Minha trajetória profissional começou na Alemanha, onde fiz meu mestrado e doutorado em geologia na Universidade de Göttingen. Foi um início clássico, com trabalho de campo com rochas paleozoicas “moles” na Alemanha e rochas pré-cambrianas “duras” em Uganda, na África Oriental. Para o doutorado, tive a oportunidade única de trabalhar em Uganda, de 1970 a 1972. Essa experiência enriquecedora em campo na África Oriental me ajudou a conseguir meus primeiros empregos como geólogo de exploração nas Nações Unidas (PNUD e UNECA). De 1975 a 1984, trabalhei como geólogo de exploração em cinco países da África Oriental. Embora tenha sido uma ótima experiência, também me levou a questionar o papel dos geólogos na sociedade. Qual a contribuição que nós, geólogos, podemos dar à sociedade? Decidi mudar minha carreira da geologia clássica para a disciplina recém-criada, orientada para a sociedade e baseada na ciência: a agrogeologia, a qual deve estar a serviço da agricultura e do desenvolvimento dos povos”. Tive que aprender muito com cientistas do solo e com agricultores locais. A vivência com agricultores africanos ampliou o meu entendimento acerca de quais rochas eram adequadas para os diferentes tipos de plantas. Daí nasceu Rocks for Crops. Após me mudar para o Canadá, para a Universidade de Guelph, onde me tornei professor, iniciei projetos de pesquisa com alunos e colegas, principalmente em países tropicais, como Uganda, Ruanda, Etiópia, Tanzânia, Zimbábue, Mali, Zâmbia, China, Sri Lanka, Indonésia, Equador e, posteriormente, Brasil. Além de desenvolver projetos internacionais, lecionei disciplinas de graduação e pós-graduação em geologia econômica, geologia ambiental e na nova ciência Rocks for Crops (2002) e Agroecology (2007), ambos disponíveis online (https://www.sgb.gov.br/remineralizadores/media/rocks_for_crops_straaten_2002.pdf e https://www.sgb.gov.br/remineralizadores/media/agrogeologymaster.pdf). Atualmente, estou escrevendo mais um livro sobre como as rochas moldam o solo e a vegetação. Estou aposentado (mas ainda não cansado), há alguns anos, porém continuo contribuindo para possibilitar o aumento da produtividade do solo e da produção de alimentos para pequenos agricultores em países do Sul Global.
Como ocorreu sua aproximação e o início de suas parcerias com pesquisadores brasileiros? De que forma eventos como a I Conferência Rocks for Crops (2004) e o 1º Congresso Brasileiro de Rochagem (2009) foram fundamentais para ampliar essas colaborações no Brasil?
No Canadá, na Universidade de Western, conheci o inspirador professor Willian Fyfe, que havia iniciado experimentos agrogeológicos com o eminente pesquisador de geologia brasileiro, professor Othon Leonardos. Durante visitas para encontrar parceiros de pesquisa com a minha universidade, a Universidade de Guelph, no Canadá, visitei a Universidade Federal Rural de Pernambuco e outras instituições de pesquisa, incluindo a Universidade de Brasília. Isso aconteceu em 2003. Lá, conheci o professor Othon Leonardos e sua pupila, a recém-doutora Suzi Huff Theodoro, ambos dedicados a contribuir para a sociedade por meio da descoberta e do desenvolvimento de recursos derivados das rochas para a melhoria dos solos em todos os cantos do território brasileiro. Para minha grande alegria, uma conexão instantânea e um forte senso de propósito começaram a surgir. Juntos, queríamos desenvolver esse novo campo da agrogeologia em uma área prática, baseada na ciência e voltada para a sociedade, pautada pela colaboração. Com o apoio financeiro de fontes brasileiras e internacionais, nossos colegas da área de agrogeologia organizaram a primeira Conferência Internacional “Rocks for Crops” em Brasília, em 2004. A segunda Conferência Internacional deste tema, realizada em Nairóbi, Quênia, em 2007, foi financiada pelo International Development Research Centre (IDRC) , uma organização canadense de pesquisa. Foi uma excelente oportunidade para encontrar colegas da América do Sul, África Subsaariana, China, Tanzânia e outros países asiáticos, trocar experiências e planejar futuros intercâmbios agrogeológicos. Conferências subsequentes no Brasil foram organizadas por nossos amigos e colegas brasileiros, que possuem não apenas experiência em geologia e ciência do solo, mas também experiência prática e interação com diversos tipos de agricultores. Não surpreendentemente, o Brasil se tornou o “Centro de Gravidade” da pesquisa e desenvolvimento agrogeológicos! Os cinco Congressos Brasileiros de Rochagem subsequentes atestam a grande visão e o comprometimento dos colegas e amigos brasileiros em tornar esses esforços de pesquisa e desenvolvimento mais visíveis. Mas, acima de tudo, mudar o perfil do uso de insumos químicos por materiais disponíveis localmente.
Ao longo de mais de 20 anos de colaboração com instituições brasileiras, como você tem acompanhado o crescimento e o desenvolvimento tanto das pesquisas quanto do uso prático dos Remineralizadores de Solo no país?
Ao longo dos últimos 20 anos, testemunhei um enorme progresso na aplicação prática da pesquisa agrogeológica no Brasil. Durante meus primeiros anos lecionando cursos de agrogeologia no Brasil (financiados em grande parte pelo programa brasileiro ‘Ciência sem Fronteiras’ na UFRPE) e em diversos encontros organizados pelos cientistas brasileiros, ficou claro que essa nova linha de pesquisa se tornaria uma alavanca de mudança com valor prático para a sociedade e para o envolvimento dos estudantes e demais interessados no uso de ferramentas multidisciplinares. Outras colaborações se seguiram, desta vez com outras universidades e com organizações governamentais, tanto da área de geologia (SGB/CPRM) quanto da agricultura (EMBRAPA), particularmente no Rio Grande do Sul, em Pernambuco e na região central do Brasil. Tenho o prazer de afirmar que, na minha opinião, o campo da rochagem e da agrogeologia encontrou seu lugar de destaque no Brasil, em pesquisa e desenvolvimento para a sociedade brasileira.
Apesar do crescimento significativo, quais são as principais limitações que ainda impedem que as rochas silicáticas moídas (REM) ocupem uma posição mais proeminente no processo de sustentabilidade do setor agrícola?
Esta é uma questão complexa. Por um lado, é difícil encontrar financiamento para pesquisas que abranjam disciplinas separadas, como geologia, agricultura e ciências sociais. A agrogeologia é um campo novo. Universidades e organizações de pesquisa seguem caminhos tradicionais que incluem a separação estrita de disciplinas. Falar de interdisciplinaridade é uma coisa; implementá-la é outra questão muito mais complicada e complexa. E, claro, existem outros atores no campo da produção agrícola, como a indústria de fertilizantes. No entanto, essa indústria atende principalmente grandes empresas agroindustriais e pouco aos agricultores menos capitalizados. Apesar dos interesses conflitantes, há uma enorme necessidade de auxiliar os agricultores, especialmente os familiares, a gerar renda e alimentos para si mesmos e para a nação. Há espaço para os diferentes atores envolvidos.
O termo “agrogeologia” foi amplamente difundido pelo Senhor. Que ações poderiam ser implementadas para romper a barreira acadêmica e integrar, nos currículos universitários, a interface e a sinergia entre geologia e agronomia, preparando futuros profissionais para atuar nesse campo interdisciplinar tão crucial?
Em muitos países, tentei construir pontes entre as duas principais disciplinas: geologia e ciência do solo. Os resultados são variados, pois é difícil convencer as instituições acadêmicas a desenvolverem cursos conjuntos para geólogos e cientistas do solo, tradicionalmente alocados em faculdades e ministérios diferentes. No entanto, no Brasil, encontrei terreno fértil para pesquisa e desenvolvimento conjuntos. Fui convidado por diversas organizações acadêmicas e de pesquisa para ministrar cursos de curta duração em agrogeologia, o que demonstrou grande interesse no desenvolvimento dessa cooperação. E tenho o prazer de anunciar que contribuí para a pesquisa do primeiro professor brasileiro de agrogeologia, o professor Ygor Jacques Agra Bezerra da Silva, da UFRPE, em Recife. Mas é evidente: os profissionais de agrogeologia, que presentemente atuam no campo da rochagem precisam se esforçar mais, direta e indiretamente, para convencer as instituições a desenvolverem cursos interdisciplinares nas universidades e pesquisa e desenvolvimento interdisciplinares em organizações governamentais e não governamentais. Além disso, mais palestras públicas e maior apoio da mídia também poderiam contribuir para esses esforços.
Os Remineralizadores de Solo podem ser considerados um ativo mineral estratégico para o Brasil e para outros países dependentes de insumos externos? Em caso afirmativo, por quê?
A produção de alimentos e a autossuficiência alimentar são importantes metas de desenvolvimento global, e a agrogeologia certamente desempenhará um papel importante nesse sentido. É evidente que, estrategicamente, mais esforços devem ser feitos para reduzir os insumos químicos, que são em grande parte importados. O uso de REM, para garantir a produtividade do solo, não representa uma receita única, mas um entendimento das particularidades dos agroecossistemas para garantir solos férteis por mais tempo. Nesse sentido, mais esforços serão necessários para apoiar a produção local de alimentos a partir de fontes locais e o desenvolvimento da produção de agrominerais disponíveis localmente.
Mesmo com a vasta produção de resultados positivos no Brasil, ainda não há um consenso global sobre a eficiência dos Remineralizadores de Solo em diferentes agroecossistemas. A que fatores o senhor atribui essa falta de consenso e como a comunidade científica pode trabalhar para melhorar essa percepção?
Mais esforços devem ser feitos para disseminar os resultados das pesquisas agrogeológicas. E, claramente, mais esforços devem ser feitos para publicar e disseminar essas descobertas em inglês para encontrar mais discussões e aceitação internacional. Outro ponto importante refere-se à quebra de paradigmas das ciências fechadas em seus dogmas. Essa quebra tem que vir desde os editores das revistas até os tomadores de decisão no âmbito de cada país.
Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, acredita que a aplicação de Remineralizadores em solos agrícolas pode se consolidar como uma ferramenta eficaz para a captura de carbono atmosférico por meio do Intemperismo Acelerado de Rochas (ERW)?
A pesquisa e o desenvolvimento agrogeológicos concentram-se principalmente na produção de alimentos. No entanto, ao produzir alimentos com remineralizadores disponíveis localmente, um valioso benefício adicional poderia ser a redução do dióxido de carbono atmosférico por meio da intensificação do intemperismo das rochas. Cientificamente, está comprovado que a aplicação de certos finos de rocha (especialmente finos de basalto) contribui para a redução do dióxido de carbono atmosférico e, portanto, para a mitigação das mudanças climáticas. Para os pequenos agricultores, os procedimentos para obter créditos de carbono são arriscados e dispendiosos, pois exigem medições, relatórios e verificações (MRV) rigorosos por organizações terceirizadas. Embora seja importante reduzir as emissões de dióxido de carbono por meio do uso de remineralizadores que melhoram a saúde do solo e aumentam o crescimento da biomassa, será difícil, pelo menos no momento, convencer os agricultores a utilizá-los para mitigar as mudanças climáticas em vez de para a produção agrícola. Esse desafio é especialmente importante em meio aos agricultores familiares, visto que essa categoria já enfrenta dificuldades para obter renda e garantir o sustento de suas famílias. Atualmente, acredito ser realista manter nossos objetivos de produzir alimentos para os pequenos agricultores utilizando fontes de rochas locais. A redução dos gases de efeito estufa será, em um primeiro momento, uma consequência não mensurada.
Que futuro o senhor vislumbra para o uso dos Remineralizadores de Solo no Brasil, considerando as principais oportunidades e limitações que o país apresenta?
O Brasil fez grandes progressos no desenvolvimento do uso de fontes minerais locais (remineralizadores) para o setor agrícola. Cada vez mais, indústrias locais têm surgido na última década e os agricultores estão utilizando esses recursos vitais. Com o apoio dos stakeholders; agricultores, acadêmicos e organizações governamentais e não governamentais; essa tendência deve continuar e ser apoiada pelo governo. Espera-se que o uso industrial dos remineralizadores seja baseado na ciência e, para isso, será necessário formar mais e mais profissionais qualificados, que transitem com facilidade pelos princípios da geoquímica, intemperismo, pedologia e nutrição de plantas.
Por fim, que conselho ou mensagem de incentivo o senhor gostaria de direcionar aos jovens pesquisadores brasileiros que estão iniciando ou atuando no campo da rochagem e da agrogeologia?
Sejam cientistas e curiosos! Aprendam nas universidades, faculdades e outras instituições as diferentes ciências: geologia, mineralogia, ciência do solo, agronomia e fitotecnia. A ciência precisa ser a base para o desenvolvimento. Mas também ouçam os agricultores sobre suas experiências de vida cultivando alimentos em suas propriedades. Com isso em mente, vocês poderão combinar esse conhecimento e contribuir para a sociedade com o campo fascinante e gratificante da agrogeologia. E não se esqueçam: “Rocks for Crops”, este é um caminho magnífico para se trilhar. Eu garanto!

Fotos: Arquivo pessoal