Nota Técnica 1
O crescente interesse global por soluções climáticas baseadas na natureza (SbN, da sigla em inglês Nature-based Solutions) e em processos geoquímicos tem colocado o intemperismo de rochas no centro das discussões, uma vez que ele pode se configurar como uma nova estratégia para a captura e o armazenamento do carbono presente no dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera. O CO₂ é um entre outros gases (N₂O e CH₄) responsáveis por agravar o efeito estufa. Apesar de outras formas de gases serem mais danosas, o dióxido de carbono é o mais recorrente e é, também, parte da solução de estabilização dos ciclos biogeoquímicos no solo. Uma tonelada de N₂O, por exemplo, provoca 273 vezes mais aquecimento do que uma tonelada de CO₂ (Tian et al, 2020)[2]; porém, uma fração relevante do último permanece na atmosfera por séculos, até milênios. Assim, cada tonelada emitida hoje compromete o sistema climático por muito tempo.
No contexto das ações práticas para a captura de carbono e reequilíbrio das funções ecossistêmicas do solo, surge uma importante terminologia. Trata-se dos termos “Intemperismo Acelerado de Rochas” e “Intemperismo Aprimorado de Rochas”, que derivam da expressão, em inglês, Enhanced Rock Weathering (ERW). Os cientistas indicaram os pressupostos do ERW em 2006, mas o conceito firmou-se a partir do ano de 2020 com a publicação de um artigo na revista Nature[3], no qual foi explicitado que a aplicação a rochas silicáticas moídas ao solo tem a capacidade de capturar e armazenar carbono por longos períodos.
O Brasil, que já vinha trabalhando com os princípios da tecnologia da rochagem, regulamentou o tema do uso dos pós de rocha, por meio da Lei nº 12.890/2013, definindo estes materiais como remineralizadores de solo (REM), desde que atendam às condicionantes da Instrução Normativa 05/2016-MAPA. Esse arcabouço jurídico e uma série de pesquisas desenvolvidas no país e no exterior facilitaram a obtenção, em 2025, das primeiras remoções verificadas de CO2 por meio do mecanismo derivado do intemperismo de rochas.
Um arcabouço jurídico consolidado para o tema dos REM e a sanção da Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa – SBCE, colocam o país como protagonista do novo mercado regulado e voluntário de CO₂. Embora o mercado regulado de carbono no Brasil ainda esteja em desenvolvimento e a regulamentação daquela Lei esteja em andamento, a operacionalização plena desse mercado, envolvendo projetos com ERW, por meio da Mensuração, Relato e Verificação (MRV), poderá apoiar a fase de relatos nessa transição.
Mas, enquanto esse mercado evolui e amadurece, é importante que a terminologia e os conceitos para comunicação adequada facilitem a inclusão e compreensão dessas novas tecnologias pela sociedade. Observa-se, frequentemente, que a imprensa, as empresas e, por vezes, representantes do setor acadêmico utilizam duas expressões – Intemperismo Acelerado de Rochas e Intemperismo Aprimorado de Rochas – muitas vezes de forma intercambiável.
Para contribuir com o uso de uma terminologia que seja plenamente compreendida, esta Nota Técnica visa esclarecer as implicações conceituais de cada termo:
Intemperismo Acelerado de Rochas: O termo “acelerado” sugere que a velocidade intrínseca (ou seja, a taxa por unidade de área de superfície) das reações químicas de intemperismo pode ser aumentada.
Intemperismo Aprimorado de Rochas: O termo “aprimorado” (ou “enhanced”, em inglês) dá a ideia de que se pode melhorar o mecanismo do intemperismo.
Considerando que existe uma dualidade e sobreposição de conceitos, a ABREFEN defende a adoção do termo “Intemperismo Acelerado de Rochas” (IAR) como a nomenclatura mais precisa e fidedigna à natureza do processo.
Para além do conceito da cinética mineral, esse conceito baseou-se na origem epistemológica das palavras acelerado e aprimorado. O termo “acelerado” provém do verbo latino accelerare, que significa “apressar” ou “fazer mais rápido”. Já a palavra “aprimorado” tem origem no verbo “aprimorar”, que, por sua vez, é formado pelo prefixo “a” (que significa “para” ou “em direção a”), a palavra “primor” (do latim primus, que significa “o que vem antes” ou “em primeiro lugar”), e o sufixo verbal “ar”.
Adicionalmente, tanto no idioma espanhol quanto no português, dá-se preferência ao termo “acelerar” porque ambos herdaram do latim o seu sentido e a sua origem. Por seu turno, “aprimorado” deriva de uma junção do anglo-francês “enhauncer” (elevar).
Outro ponto considerado refere-se ao fato de que, em uma pesquisa nos buscadores de palavras (e/ou termos), é possível encontrar, apenas em uma plataforma (Google Acadêmico), 75 vezes o termo “intemperismo acelerado de rochas” e 27 vezes o termo “intemperismo aprimorado de rochas”. Ainda que ambos os termos sugiram o processo de transformação de minerais, o primeiro indica intensificação do processo de intemperismo, enquanto o segundo pode ser entendido como aperfeiçoamento de tal processo.
Mas é importante esclarecer que o processo e os mecanismos que viabilizam o Intemperismo Acelerado de Rochas consistem na aplicação deliberada de rochas silicáticas cominuídas (moídas) em ambientes de solos agrícolas, conforme previsto na tecnologia da rochagem. O objetivo principal é intensificar os processos naturais de intemperismo químico das rochas, para alterar os níveis de fertilidade do solo (como estabelece a Lei 12.890/2013), mas também favorecer a captura de CO₂.
A cominuição (moagem) das rochas tende a aumentar, de forma significativa, a superfície específica dos minerais, que ficam assim mais expostos às reações químicas. Isso significa que, para uma mesma massa de material rochoso, um número significativamente maior de reações de intemperismo pode ocorrer simultaneamente. A velocidade pode então ser alterada e a quantidade total de CO₂ capturado e de nutrientes liberados por unidade de tempo é substancialmente acelerada, devido ao aumento da área de contato exposta (área superficial de reação) e das condições intrínsecas do solo que recebem os minerais das rochas cominuídas e dos processos de gênese prevalentes naquele ambiente.
Em outras palavras, o processo é “acelerado” porque as condições foram otimizadas para maximizar as reações naturais, resultando em uma maior taxa geral de liberação de nutrientes e de sequestro (captura) de carbono, resultando em um novo equilíbrio das funções ecossistêmicas do solo, incluindo a interação com os processos biológicos. Outro fato que fundamenta o termo “acelerado” reside na maior reatividade dos materiais ricos em cátions básicos (Ca²⁺, Mg²⁺, K⁺, Na⁺) quando expostos a processos intempéricos. Essa reatividade, potencializada pela combinação de oxidação, hidratação e atividade de decomposição biológica, favorece a formação de minerais secundários.
A interação dos minerais, da água, dos fluidos, dos microrganismos e do ar permite uma série de reações bioquímicas. A água no solo dissolve parte do dióxido de carbono (CO2) e forma ácidos fracos, que reagem com os minerais das rochas, liberando cátions como cálcio e magnésio. Com a continuidade das reações de hidrólise, esses elementos seguem na água como bicarbonatos. Parte desses fluidos enriquecidos, ao serem transportados pela drenagem até rios e oceanos, pode formar carbonatos, convertendo-se em um caminho natural de retirada de CO₂ da atmosfera em prazos longos. Ainda, no longo prazo, a descarga de cátions de Ca e Mg nos reservatórios oceânicos promove sua alcalinização. Além disso, a maior disponibilidade desses nutrientes estimula a vida de organismos planctônicos, que, por sua vez, vão usar os compostos de CO2 para formar suas carapaças.
Apesar dessas potencialidades, é importante destacar que a eficiência das reações que solubilizam esses nutrientes depende principalmente de três fatores que devem ser avaliados antes da aplicação das rochas silicáticas moídas ricas em minerais que contenham esses nutrientes: (i) granulometria — de modo geral, o tamanho das partículas define a velocidade das reações, ou seja, quanto mais fino o material, maior a reatividade; (ii) quantificação dos diversos óxidos contidos nas rochas (incluindo óxidos de cálcio e de magnésio), que pode ser feita por meio de análises de Fluorescência de Raios-X; e (iii) caracterização mineralógica feita por meio de análises petrográficas e de Difração de Raios X, onde é possível identificar os tipos de minerais que compõem as rochas, seu grau de alteração e/ou o estado de preservação da estrutura cristalina dos minerais. Com os resultados dessas análises, é possível avaliar a adequação química e mineralógica das diferentes rochas e quais são as mais favoráveis do ponto de vista da reatividade.
Tendo em vista esses requisitos, vale ressaltar que a cinética reativa dos minerais se fundamenta em princípios amplamente consolidados na literatura clássica, notadamente nos trabalhos de Bowen (1922) e de Goldisch (1938). O primeiro sugeriu a ordem de cristalização (formação) dos minerais e o segundo, a sua susceptibilidade intempérica. Atentando para esses princípios, minerais como olivina e piroxênios, além dos plagioclásios cálcicos, alteram-se mais facilmente. Na sequência aparecem feldspatos potássicos e muscovita, que são menos ou pouco reativos e, por fim, o quartzo, que não é reativo. Micas do tipo biotita situam-se numa posição intermediária quanto à reatividade. Por isso, a escolha do tipo de rocha e a granulometria do material aplicado ao solo podem definir o processo e a velocidade de captura de CO₂.

É importante considerar também que o processo de intemperismo em ambiente tropical é mais acelerado, diferentemente do que ocorre em ambiente temperado, devido à acidez natural dos solos e às suas características edafoclimáticas. No caso do ambiente tropical, a estabilidade dos minerais com carbono em sua estrutura pode mudar. Além da captura e transporte, via fluidos no solo, outro efeito a ser considerado é a formação de novas fases minerais de baixa cristalinidade e altíssima capacidade de reatividade, que promovem um efeito de blindagem do carbono que já está no solo, servindo como proteção para oscilações térmicas, ações enzimáticas no solo e melhorando as suas funções ecossistêmicas. À medida que os compostos químicos dos minerais presentes na rocha são solubilizados, o solo tende a reduzir a acidez, aumentar a capacidade de reter e trocar nutrientes e formar novos minerais (fases cristalinas de baixa cristalinidade formadas por silício, alumínio e ferro) que prendem nutrientes e protegem a matéria orgânica, ajudando a estocar carbono no solo por mais tempo. Esse processo também melhora a estrutura, infiltração e retenção de água, reduz o selamento superficial e favorece a vida na rizosfera, composta por raízes e microrganismos benéficos (fungos, bactérias e outros).
O efeito primário desse conhecimento e sua aplicação resulta em um agroecossistema mais estável e resiliente a secas e variações climáticas, já que entender a aptidão e os riscos naturais do solo, intrínsecos à sua gênese, ajuda na maximização dos efeitos. Um efeito complementar ou secundário ocorre com a liberação de nutrientes importantes para as plantas, como cálcio, magnésio, potássio, fósforo e diversos micronutrientes. Esse benefício é fundamental para facilitar a captura e o armazenamento de carbono no solo, mas também para melhorar os benefícios produtivos das plantas. Portanto, ao conhecer as propriedades químicas, mineralógicas e físicas das rochas, pode-se definir o intervalo granulométrico mais adequado para cada tipo de solo (mais arenoso ou mais argiloso), facilitando o processo de dissolução dos minerais e a escala dos processos de captura de carbono.
É fundamental destacar que o IAR não introduz catalisadores ou outros agentes para alterar a cinética fundamental das reações de intemperismo. O que ocorre é uma otimização das condições para que o intemperismo natural se manifeste de forma mais atuante e intensa. Portanto, entender os fatores e processos de formação do solo, entender a gênese do local que irá receber os REM, impacta diretamente no efeito desejado de captura de carbono.
Diante do exposto, recomenda-se fortemente:
Adoção consistente do termo “Intemperismo Acelerado de Rochas” (IAR) por parte de pesquisadores, profissionais da área, órgãos governamentais, entidades representativas e veículos de comunicação. Esta uniformização é crucial para assegurar precisão e clareza na disseminação de informações sobre a tecnologia.
Ampliação do esclarecimento público e educacional: promover iniciativas que expliquem a diferença conceitual entre os termos. Destacar que o IAR otimiza as condições para o intemperismo natural ao aumentar a superfície reativa, sem acelerar a velocidade intrínseca das reações químicas individuais.
Padronização em Publicações Científicas e Normativas: incentivar a comunidade científica e regulatória a utilizar “Intemperismo Acelerado de Rochas” em artigos, estudos, relatórios e legislações, contribuindo para a uniformidade e o rigor na literatura técnica e acadêmica.
Considerações finais
A escolha do termo “Intemperismo Acelerado de Rochas” é não apenas mais precisa, mas também reflete adequadamente os princípios e objetivos de uma tecnologia que busca valorizar e ampliar a eficácia de um processo geoquímico natural em prol da sustentabilidade ambiental, agrícola e climática. O uso correto da nomenclatura é essencial para construir uma compreensão sólida e evitar interpretações equivocadas que possam prejudicar o avanço e a aceitação dessa importante solução para os desafios climáticos e o alcance da segurança alimentar.
Igualmente importante, é imperativo ressaltar que o IAR não resultará da utilização de qualquer rocha silicática de forma indiscriminada. A seleção das rochas é um processo criterioso, visando aquelas que, além de serem ricas em minerais silicatos de cálcio e magnésio, possuem composições mineralógicas que favorecem a liberação de nutrientes benéficos ao solo e às plantas, e não apresentem riscos quanto à presença de elementos potencialmente tóxicos. Essa abordagem está alinhada à prática de utilização dos REM. Portanto, tanto o IAR quanto a remineralização de solos compartilham o princípio de utilizar rochas selecionadas para promover benefícios agronômicos, ambientais e climáticos, reforçando a importância de uma escolha criteriosa dos materiais utilizados.
Textos complementares e sugeridos:
David Manning – O futuro promissor dado pelo uso dos Remineralizadores de Solo: https://revistanovosolo.org.br/2025/07/11/david-manning-o-futuro-promissor-dado-pelo-uso-dos-remineralizadores-de-solo/
Liderança e sustentabilidade no agronegócio brasileiro: Câmara Agrocarbono Sustentável do MAPA: https://revistanovosolo.org.br/2024/11/19/entrevista-eduardo-bastos/
Nota de Esclarecimento ABREFEN / Remineralizadores de Solo: https://abrefen.org.br/2023/06/29/remineralizadores-de-solo/
[1] Essa Nota Técnica foi elaborada coletivamente pelos membros do Conselho Técnico-Científico da ABREFEN.
[2] Tian, H., Xu, R., Canadell, J.G. et al. A comprehensive quantification of global nitrous oxide sources and sinks. Nature 586, 248–256 (2020). https://doi.org/10.1038s41586-020-2780-0
Saiba mais:
abrefen.org.br
revistanovosolo.org.br
Fotos: arquivos ABREFEN