Livro: Soil Remineralizers and Silicate Fertilizers: Regional Solutions to a Healthy Agriculture

Publicação sobre REM e FN chega ao Brasil – Conheça um pouco mais sobre a obra nessa resenha exclusiva.

Em um cenário global marcado por crescentes inseguranças alimentares, tensões geopolíticas e transformações ambientais profundas, a ciência tem buscado constantemente soluções inovadoras para garantir a produtividade agrícola sem comprometer os ecossistemas. Nesse contexto, o uso e o desenvolvimento de fertilizantes ocupam posição central nas estratégias de pesquisa e nas políticas públicas. Diante dessa realidade, a publicação do livro Soil Remineralizers and Silicate Fertilizers: Regional Solutions to a Healthy Agriculture (com tradução para o português: Remineralizadores de Solo e Fertilizantes Silicáticos: Soluções Regionais para uma Agricultura Saudável), publicado pela Springer (https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-032-14656-4), é recebida com entusiasmo no Brasil, especialmente pelo público que pratica ou está em transição para uma agricultura de baixo impacto ou regenerativa.

O livro possui como editores Éder de Souza Martins e Suzi Huff Theodoro, reconhecidos por suas pesquisas e dedicação à prática da rochagem ao longo de mais de duas décadas. A publicação conta com artigos elaborados por pesquisadores, professores e alunos de doutorado de diversas instituições brasileiras.

Os temas abordados sugerem que a utilização de rochas silicáticas moídas emerge como uma estratégia promissora no âmbito da agricultura sustentável e regenerativa. Isso ocorre uma vez que esses materiais, conhecidos como Remineralizadores de Solo (REM) ou Fertilizantes Naturais, representam uma rota tecnológica viável e com menor impacto ambiental em comparação aos fertilizantes solúveis convencionais. O uso desses materiais remonta à década de 1950, com os estudos pioneiros de Ilchenko e Guimarães. Posteriormente, a partir dos anos 1970, Leonardos e colaboradores passaram a desenvolver os conceitos e os primeiros experimentos com pós de rocha. Contudo, foi apenas no início do século XXI que os REM começaram a ganhar amplo destaque nas pesquisas no Brasil.

O protagonismo brasileiro nessa área é notável, e permitiu que os REM conquistassem posição de destaque como alternativa tecnológica para aumentar a produtividade agrícola e reduzir a dependência nacional de fertilizantes químicos. Essa dependência sempre representou uma vulnerabilidade estratégica para a agricultura brasileira, especialmente em momentos de crises internacionais e flutuações cambiais. O avanço dos remineralizadores foi impulsionado por investimentos em pesquisa, aliados a um marco regulatório claro e objetivo, no qual se destacam a Lei Brasileira nº 12.890/2013, a Instrução Normativa MAPA nº 05/2016 e o Decreto nº 10.991/2022, que estabeleceu o Plano Nacional de Fertilizantes. Esses instrumentos legais forneceram segurança jurídica e técnica para a produção, comercialização e uso dos remineralizadores, estabelecendo critérios de qualidade, eficiência agronômica e segurança ambiental.

Esses fatores são amplamente considerados na publicação, que se centra nesse potencial transformador. Nesse sentido, os capítulos exploram diversos aspectos dos REM e FN, incluindo novas propostas para a classificação de rochas silicáticas, seus benefícios diretos e indiretos para os agroecossistemas, bem como práticas que mitigam os impactos climáticos associados à agricultura.

O capítulo introdutório aborda os princípios da agrogeologia e enfatiza que os pós de rochas silicáticas são ferramentas estratégicas para países dependentes de fertilizantes solúveis importados, particularmente em regiões tropicais com solos intemperizados, como é o caso do Brasil. Os autores mencionam que a rica geodiversidade do país e um setor agrícola robusto posicionam favoravelmente o Brasil para adoção dessas tecnologias, apoiada por um sólido marco regulatório que assegura eficácia agronômica e segurança ambiental com base em princípios científicos.

O Capítulo 1 aborda o tema do intemperismo biológico na perspectiva da mudança de escalas temporais e a transformação biológica da litosfera terrestre por meio de interações entre plantas, microrganismos e minerais. Esse processo, que pode acelerar a dissolução mineral, especialmente de rochas silicáticas, favorece a agricultura e a mitigação climática. Os autores apontam o potencial do uso de agrominerais silicáticos não apenas para fornecer nutrientes como o potássio, mas também para melhorar as propriedades do solo, aumentar a CTC e sequestrar CO₂ atmosférico.

O Capítulo 2 versa sobre a classificação química e mineralógica dos agrominerais silicáticos (ASi), definidos como rochas e materiais industriais com mais de 50% de silicatos e ricos em bases (cálcio, magnésio e potássio). Projetados para uso regional, esses materiais influenciam diretamente a fertilidade do solo por meio do fornecimento de nutrientes, elevação do pH e neoformação de minerais, além de auxiliarem indiretamente no sequestro de carbono inorgânico e na estabilização da matéria orgânica. A classificação delineia oito classes distintas com base na reatividade mineral e na duração potencial do efeito (curto, médio e longo prazo).

O Capítulo 3 examina os efeitos de agrominerais silicáticos na geração de cargas elétricas em solos do Cerrado brasileiro. Os autores apresentam dados de experimentos de longa duração e indicam que ocorreu aceleração do intemperismo mineral, formação de complexos organominerais, maior liberação de nutrientes, estabilização da matéria orgânica e aumento da atividade microbiana. Esses processos elevam a CTC do solo e reduzem a lixiviação de nutrientes, criando uma via promissora para a mitigação de gases de efeito estufa por meio da retenção de carbono a longo prazo.

O Capítulo 4 aborda o potencial dos remineralizadores para a remoção de dióxido de carbono em solos agrícolas por meio do intemperismo acelerado de rochas (ERW). O autor descreve três vias principais para esse processo: lixiviação de bicarbonatos para os oceanos; formação de matéria orgânica associada a minerais (MAOM), apontadas como as rotas mais promissoras, e a precipitação de carbonatos minerais, considerada menos viável devido a condições químicas desfavoráveis nos solos tropicais.

O Capítulo 5 destaca que os remineralizadores do tipo ASiCaMg, derivados de rochas como basalto e anfibolito, elevam o pH do solo, reduzem o Al3+ e aumentam os teores de Ca, Mg, K, P e micronutrientes em condições tropicais. Os autores sugerem que esses materiais também podem sequestrar CO₂ e que, ao substituírem parcialmente o calcário, reduzem as emissões de gases de efeito estufa, embora essa rota seja dependente do tipo de solo, da rocha e do manejo adotado.

O Capítulo 6 apresenta um protocolo laboratorial para avaliar a eficiência de agrominerais de silicato na correção da acidez do solo, utilizando incubação controlada de curto prazo. O texto abrange os princípios da acidez do solo, a dissolução de silicatos e a oxidação de ferro, além do tempo ideal de incubação, oferecendo uma metodologia prática com rochas básicas que integra fundamentos teóricos à aplicação agrícola sustentável.

O Capítulo 7 examina como o uso de metabasalto corrige a acidez do solo no Cerrado, aumentando o pH e a disponibilidade de nutrientes como cálcio e magnésio. Estudos conduzidos com milho e soja demonstram que esse produto melhora a produtividade das culturas.

O Capítulo 8 examina os fatores que afetam a solubilização de silicatos de magnésio e a eficácia do dunito e do termomagnésio como fertilizantes alternativos em solos tropicais. Como esses materiais aumentam a disponibilidade de magnésio e silício, eles otimizam a taxa fotossintética, elevam o pH do solo e liberam Mg de forma constante. Os autores concluem que esses agrominerais atuam como fertilizantes ecológicos que reduzem a dependência de insumos convencionais e promovem a agricultura sustentável em solos tropicais deficientes em nutrientes.

O Capítulo 9 informa que, em solos tropicais, o potássio (K) é essencial para as plantas e que a liberação desse nutriente a partir de rochas silicáticas depende de fatores como tamanho de partícula, pH, ácidos orgânicos e microrganismos. Os autores advertem, no entanto, que tecnologias como pré-tratamentos térmicos, microrganismos solubilizadores e adição de matéria orgânica podem melhorar a eficácia desses produtos, evidenciando que a adoção de sistemas de cultivo sustentáveis é fundamental para otimizar esse ambiente e viabilizar culturas rentáveis.

O Capítulo 10 destaca que o Brasil é um grande exportador de commodities agrícolas, mas permanece dependente da importação de fertilizantes solúveis. Para contrapor-se a essa fragilidade, o texto ressalta que a combinação dos remineralizadores e dos bioinsumos configura-se como fontes regionais sustentáveis de insumos que fornecem múltiplos nutrientes, aumentam a produtividade e a resiliência agrícola. O artigo demonstra o alto potencial do uso combinado ou individual desses insumos para manter a liderança brasileira na produção de alimentos mais nutritivos, aliando capacidade produtiva à preservação ambiental.

O Capítulo 11 analisa 108 artigos publicados nas quatro edições do Congresso Brasileiro de Rochagem (2009 a 2021) e verifica que tais publicações abrangem temas multidisciplinares, indo da exploração (lavra) e beneficiamento das rochas até os benefícios para solos e plantas. Os autores indicam que os artigos analisados sugerem que existem desafios a serem superados, como a ampliação das pesquisas para variados tipos de culturas agrícolas e a necessidade de expandir grupos de pesquisa e políticas públicas para a adoção da técnica por diferentes perfis de agricultores.
Por fim, o Capítulo 12 explora as estratégias de pesquisa para avaliar os REM, considerando-os como fontes de baixa solubilidade e liberação gradual. O artigo destaca a importância dos processos biológicos e do biointemperismo mediado por microrganismos para aumentar a eficácia dos REM em condições tropicais, defendendo abordagens multifacetadas que integrem tipo de solo, cultura, taxas de aplicação, propriedades físicas e a escala temporal dos experimentos para superar as limitações dos controles tradicionais.

Portanto, os temas tratados nesse livro oferecem uma síntese atualizada sobre remineralizadores de solo e fertilizantes silicáticos, enfatizando abordagens sustentáveis para os desafios globais de fertilidade do solo. Por fornecer insights valiosos e orientações práticas para pesquisadores, formuladores de políticas públicas e profissionais dedicados ao avanço de uma agricultura mais saudável, resiliente e ambientalmente responsável, este livro converte-se em uma síntese do protagonismo brasileiro nessa área.

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